28 março 2026 - 10:51
Passos solitários rumo ao azul infinito

Durante o exercício militar, o navio Dena repousava sobre a água como um cisne branco. Diziam que a missão era difícil. Na noite anterior, eu havia sonhado que rezava em uma mesquita luminosa. Agora era hora do chamado à oração. O sol se espalhava sobre o mar quando um relâmpago de fogo rompeu o silêncio do oceano.

Agência Internacional AhlulBayt (A.S.) – ABNA: Escrevo para ti a partir dos fios mais delicados da tua ausência...

Fui envolvido em um cesto. Não de seda, mas da bondade silenciosa das mãos de estranhos. Meu primeiro berço não foi um abraço com cheiro de mãe. A primeira canção de ninar que ouvi foi o uivo do vento nos corredores frios do orfanato. Quando amarraram o cordão do meu ventre, ninguém o beijou. Mas quando abri os olhos, encontrei-me refletido no espelho do luar. Era como se Deus tivesse dito:
“De agora em diante, Eu sou teu pai e tua mãe, e o mar será tua irmã gentil.”

Seguravam minhas mãos para que eu aprendesse a caminhar, mas eu queria aprender a andar sobre as ondas. Atrás das janelas do orfanato, o mundo terminava em um pequeno pátio, mas meus olhos iam além do horizonte. Um dia, peguei um pedaço de nuvem e o escondi no bolso. Disse:
“Vou guardá-lo para um dia difícil, quando sentir saudade de uma mãe que nunca conheci.”
Naquela noite não choveu, mas meu travesseiro estava molhado.

Ao folhear livros, eu beijava as imagens do mar. Dizia:
“Tu és a vastidão de uma mãe. Vou encontrar o que perdi em teu abraço.”
Um dia, no pátio do orfanato, vi um pássaro morto. Disseram que ele não tinha dono. Respondi:
“Ninguém está sem dono. Deus é o dono de todos.”
Enterrei o pássaro sob uma amoreira e rezei por ele. Naquele dia, entendi que meu coração batia por todos os desamparados do mundo.

Fortaleci meus passos e disse:
“Eu pertenço ao mar.”
Quando vesti o uniforme da marinha, parecia que toda a orfandade do mundo havia saído de mim. Esse uniforme foi um pai que me deu identidade. Foi uma mãe que me abraçou. O navio protetor do Golfo Pérsico tornou-se minha casa. Ao olhar para o mar, às vezes, nas veias da luz, surgia o rosto de alguém. Talvez aquela mulher um dia me tivesse abraçado. Mas agora, o mar — mais materno do que qualquer mãe — me embalava em seu peito.

Durante o exercício militar, o navio Dena repousava como um cisne branco sobre a água. Diziam que a missão era difícil. Na noite anterior, eu havia sonhado que rezava em uma mesquita luminosa. Agora era hora do chamado à oração. O sol se espalhava sobre o mar quando um relâmpago de fogo rompeu o silêncio.

Num piscar de olhos, céu e mar se tornaram um só. O navio Dena, o cisne branco, abriu suas asas e voou. E eu, entre fumaça e fogo, não afundei — flutuei numa luz que preenchia todo o universo, do alto ao mais baixo.

Eu voei. Tornei-me desaparecido eterno. Isso significa que nada restou de mim?
Não.
Minha marca foram as ondas que o navio Dena deixou no coração do mar.
Minha marca foi o olhar cheio de saudade das crianças do orfanato para o horizonte.
Minha marca foram as mãos daquele menino que um dia guardou uma nuvem no bolso para acalmar sua solidão.

Os dias passaram. As águas internacionais tornaram-se o berço daquele bebê que cresceu e voltou para casa. Encontraram meu corpo — não nas profundezas, mas na superfície do mar. O mar devolveu seu filho perdido. Talvez quisesse mostrar a todos que eu não estava perdido, apenas era seu hóspede.

Quando me tiraram da água, limparam meu rosto. Um sorriso permanecia em meus lábios — como se eu tivesse acabado de marcar um encontro com Deus.

Quando envolveram meu corpo na mortalha, ele tinha o cheiro do mar.
O cheiro do Golfo Pérsico.
O cheiro de uma mãe que finalmente trouxe seu filho de volta à margem.

E agora, sempre que chove, as crianças do orfanato colam seus rostos na janela e dizem:
“Olha, o céu está chorando.”
E eu, por trás das nuvens, aceno para elas.

Eu sou aquele menino.
Aquele que era órfão e se tornou homem do mar.
Aquele que voou nos braços do oceano e encontrou descanso em seu coração.

Escreveram meu nome nas ondas.
Nas lanças de luz.
Nas asas das aves marinhas que, a cada manhã, recitam uma prece à imensidão infinita.

Eu te falei a partir dos fios mais delicados da tua ausência.
Agora acredita: existir, às vezes, assume a forma do mar — infinito, eterno…mãe.

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